Uma das maiores riquezas dos países latino-americanos é a sua biodiversidade. Ainda assim, raramente ela contribui para o desenvolvimento econômico das nações que compõem a região.

No Brasil, segundo as estatísticas oficiais, nenhuma das 10 exportações principais em 2016 teve origem na biodiversidade do país. Em vez disso, a ênfase tem sido nos produtos que exigem transformação ou mesmo, na pior das hipóteses, a destruição da própria biodiversidade. O resultado são produtos de baixo custo com pouco valor agregado, como monoculturas, extensa pecuária e mineração.

Enquanto insistimos nessa fórmula econômica, o mundo marcha rumo à Quarta Revolução Industrial com avanços incríveis em genética e biologia. Não obstante os excepcionais materiais genéticos sob seu controle, os nossos países estão perdendo terreno e deixando de capitalizar as nossas riquezas naturais. Isso se deve à falta de entendimento de que existe uma necessidade que vai além de salvar esses materiais, e nem isso está sendo feito com eficácia. Temos de utilizar a nossa biodiversidade de forma inovadora e sustentável. Ainda melhor é que podemos fazê-lo conservando a nossa biodiversidade e mantendo os nossos ecossistemas.

Para isso, porém, é urgente avançar na economia do conhecimento da Quarta Revolução Industrial. Alguns acham que isso não é possível nos nossos países, mas há exemplos, pelo menos no Brasil, que demonstram que, quando há vontade política e planejamento adequado, os resultados são positivos.

É o caso da agropecuária, que foi modernizada após a criação da Embrapa (uma agência dedicada à pesquisa). Outro exemplo é a Embraer (empresa brasileira fabricante de aviões), que contrata a maioria dos seus profissionais no ITA, uma faculdade de engenharia excepcional que mantém elevados padrões internacionais desde a sua fundação. Há outros bons exemplos entre os produtores de papel e celulose, como a Fibria e outras empresas, que forjaram parcerias com as melhores universidades brasileiras, resultando em avanços exemplares e respeitados no mundo inteiro.

Não faltam exemplos do que não deveríamos estar fazendo, como a insistência no atual modelo de desenvolvimento, que só intensificará as perdas sociais e naturais. Não há por que construir centros de pesquisa quando não há profissionais de alto nível ou investimentos para alavancar a qualidade de um determinado campo. Alguns centros ostentam laboratórios caros, mas não têm uma equipe de profissionais capaz de conceitualizar novas ideias que promovam a utilização da biodiversidade para conquistar ganhos sociais, econômicos e ambientais.

Em geral, falta apoio para implementar modelos econômicos ousados que deem a esses países a capacidade de alavancar os setores econômicos mais dinâmicos, como aqueles que dependem da utilização intensiva do conhecimento — biotecnologia, informática e comunicações. Esses setores poderiam acelerar o crescimento e reduzir a exploração de recursos naturais.

Parece evidente que, para se desenvolver no mundo atual, a sociedade precisa ser rica em conhecimento. Isso, por sua vez, requer investimento em capital humano, assim como a importação e subsequente exportação de produtos que dependem do conhecimento, não apenas de recursos naturais.

A implicação de uma política de desenvolvimento voltada para um futuro mais equilibrado e próspero é a necessidade de se adotar acordos políticos que abandonem a utilização intensiva de recursos naturais e de se buscar novas combinações de educação e pesquisa para gerar ganhos econômicos com uma nova visão que respeite a natureza e evite a exploração excessiva da biodiversidade.

É claro que o acesso a recursos genéticos deve ser regulado para proteger o meio ambiente e assegurar a justiça social, e esses objetivos exigem muito mais do que simples leis ou tratados. Eles requerem uma mudança de paradigma que inclua um contrato social baseado em um planejamento consultivo com metas e objetivos claros que possam ser implementados de forma contínua e a longo prazo em todos os setores da sociedade.

Parece ser mais importante ampliar a capacidade científica dos países em desenvolvimento e formar profissionais que possam conduzir os seus países rumo ao desenvolvimento baseado no conhecimento do que proteger porções de terra como reservas, ou mesmo transformar áreas naturais em monoculturas agrícolas, como tem sido a tendência.

A cooperação interinstitucional ou mesmo continental certamente pode contribuir para o conhecimento necessário para identificar como a biodiversidade pode ser uma fonte de riqueza para um país em vez ser vista como algo a ser destruído.

Apenas esse conhecimento permitirá que os nossos países se tornem exportadores de recursos naturais de forma a não mais promover a extinção de espécies e a destruição da biodiversidade. Uma utilização sólida e racional da biodiversidade, baseada no conhecimento, pode conduzir à justiça social e a um relacionamento respeitoso com a natureza, o que, por sua vez, pode melhorar a sua proteção para as gerações atuais e futuras. Na nossa opinião, esse parece ser um desafio adequado para a América Latina no início do século XXI.