Há algo incongruente no mundo do capital de risco. A maioria das start-ups é fundada por pessoas da geração do milênio, e 76% delas acreditam que as empresas têm o poder de fazer uma diferença no mundo. Então, por que a maioria das start-ups não é socialmente responsável?

Por outro lado, dos US$ 85 trilhões de ativos sob gestão no mundo (com cerca de US$ 1 trilhão em fundos de capital de risco), US$ 23 trilhões divulgam informações não financeiras, como dados ambientais, sociais e de governança empresarial (ESG) nos seus critérios de investimento, e essa parcela está crescendo 25% ao ano. Então, por que o capital de risco continua de certa forma imune a essa tendência?

Se os gestores de ativos de capital de risco aplicassem filtros rigorosos de ESG, estariam mais bem equipados para devidamente avaliar as start-ups. Em outras palavras, substituiriam os seus estetoscópios por scanners de ressonância magnética.

A ideia predominante hoje em dia é que a avaliação do perfil de ESG das start-ups representaria um desvio de outros indicadores importantes, como perfis dos fundadores, modelos financeiros ou benchmarks do mercado. Mas como a maioria das start-ups morre ainda na infância, temos de ser ainda mais rigorosos quando examinamos empresas em estágio inicial em geral. Eis alguns dos motivos pelos quais os fundadores de start-ups e gestores de fundos de capital de risco devem levar a sério a responsabilidade social empresarial:

1. A aplicação de critérios de ESG resulta em uma vasta redução de riscos desnecessários. O filtro adicional avalia as empresas de acordo com a sua governança empresarial, práticas operacionais, riscos ambientais e impactos sociais, o que permite identificar respostas a perguntas pertinentes e relevantes em relação às empresas: os fundadores têm um histórico de sonegação de impostos? Os produtos da start-up têm o potencial de violar direitos humanos ou normas ambientais em vários países? Contribuem para a mudança climática?

Esses riscos, se não forem devidamente considerados, poderão ter um impacto negativo no valor total da empresa. Segundo um estudo recente da EY, apenas 13% dos investidores não mudariam de ideia se descobrissem que a empresa em que estão investindo poderia causar a escassez de recursos (como a água). Em termos simples, sustentabilidade basicamente se refere a identificar empresas bem administradas com uma visão de longo prazo.

2. Outro detalhe digno de nota é que está demonstrado que empresas socialmente responsáveis, em todas as áreas, são mais rentáveis. Há uma quantidade impressionante de estudos com estatísticas claras que mostram a correlação. Por exemplo, uma análise de mais de 300 empresas dos setores farmacêutico, de produtos de consumo, petróleo e gás, bancos e tecnologia, realizada recentemente pelo Boston Consulting Group, constatou que as empresas com operações mais éticas geraram mais lucros e tendiam a ser mais valorizadas do que as concorrentes.

3. A responsabilidade social também ajuda a aumentar as vendas das empresas, já que as tendências de consumo conscientizado estão em alta. Para oferecer uma perspectiva global, um relatório mostra que 66% dos consumidores pesquisados em 60 países estão dispostos a pagar preços mais altos pelos produtos de empresas com consciência ambiental.

Outro estudo afirma que 87% dos cidadãos norte-americanos comprariam o produto de uma determinada empresa se esta defendesse um tema específico de seu interesse. Quando uma start-up vende produtos ou serviços com impacto negativo no meio ambiente ou na sociedade em geral, é compreensível que o seu crescimento seja prejudicado.

4. Uma start-up com mais significado também tem maior capacidade de atrair e reter funcionários. De fato, um estudo identificou o significado, definido como o sentimento de que o trabalho da pessoa contribui para a sociedade como um todo, como o terceiro fator mais importante do envolvimento dos funcionários. Essas constatações fazem sentido, pois confirmam o fato de que os funcionários que identificam um propósito social no seu trabalho tendem a demonstrar mais fidelidade à empresa.

5. A eficiência e a produtividade do trabalho resultam de todo um conjunto de fatores, inclusive a coesão e motivação da equipe e a reputação da empresa. De acordo com as estatísticas, 42% da reputação de uma empresa se baseia nas percepções do consumidor em relação ao desempenho da empresa na área de responsabilidade social.

6. A responsabilidade empresarial estimula a inovação e diferenciação, impulsionando a competitividade. Quer um exemplo concreto? Basta ver como as forças do mercado estão pressionando a Nike e a Adidas a serem inovadoras no desenvolvimento de materiais e tecnologias sustentáveis. A Adidas criou uma linha de produtos que utiliza plásticos retirados dos oceanos, e a Nike optou por investir em tecnologias como a ColorDry (coloração sem água) para preservar o meio ambiente.

7. Os fundos de capital de risco e seus sócios investidores passarão a exigir, com frequência cada vez maior, que os seus ativos sejam responsáveis. Essa tendência começou a despontar cerca de uma década atrás, quando os investidores institucionais de grande porte começaram a abandonar as ações “pecaminosas”. Como exemplo, o fundo soberano norueguês retirou-se de uma empresa de mineração sul-africana, a DRD Gold, e de uma empresa bélica sul-coreana, a Poongsan Corp.

À medida que se torne mais claro que os ativos socialmente responsáveis registram um desempenho melhor, os gestores e titulares de ativos serão mais proativos na busca de outras oportunidades de expansão nesse espaço. Assim, veremos gigantes como a Andreessen Horowitz, Sequoia, 500 Startups e várias outras começarem a aplicar filtros de ESG - senão por outro motivo, pelo menos para responder às pressões de seus sócios investidores.

8. A utilização de métodos de produção que reduzem o desperdício e incentivam a reutilização resulta em menores custos de produção. O mesmo princípio vale tanto para uma pequena start-up varejista que esteja reconsiderando a utilização de embalagens plásticas como para os foguetes reutilizáveis da SpaceX. A consciência ambiental e a consciência financeira são dois lados da mesma moeda.

9. No passado, só umas poucas empresas de grande porte, como a Unilever, exigiam de alguns dos seus fornecedores a integração de práticas de ESG. Mas agora a lista é bem maior – basta ver a Samsung, General Motors, Colgate-Palmolive e centenas de grandes empresas classificadas no Dow Jones Sustainability. Se o fornecimento a gigantes empresariais fizer parte do plano de negócios de uma start-up, as suas chances estarão diretamente relacionadas aos seus próprios padrões de responsabilidade empresarial.

10. Não adie o inevitável. Com investidores, consumidores, funcionários e fornecedores pressionando as empresas a serem socialmente responsáveis, é mais fácil e mais barato já nascer no caminho certo do que ser forçada a reformular estratégias e modelos de negócios para acompanhar o mercado. A responsabilidade social empresarial não depende do tamanho. É uma questão de visão.

Se os filtros de ESG tivessem sido aplicados desde a concepção, inúmeras start-ups em alta demanda teriam sido expostas antes. Um ótimo exemplo é a Theranos, uma start-up dedicada a exames de sangue, cujo valor de US$ 9 bilhões se transformou em cinzas da noite para o dia, imediatamente após a descoberta de que a empresa era uma fraude, que utilizava teorias científicas não comprovadas e tinha enviado resultados errôneos a pacientes, resultando em várias decisões médicas equivocadas.

Ao levar em consideração o impacto social das empresas, a diligência de ESG teria exigido o estabelecimento de controles de qualidade e segurança para evitar uma situação tão comprometida. A ausência de ESG também criou as condições para que a DrKoop.com, o principal website de saúde no fim da década de 1990, buscasse o aval de hospitais e outras empresas de serviços médicos, o que posteriormente foi considerado antiético – iniciativa que foi fatal para a empresa.

Outro exemplo é a HomeJoy, uma start-up que criou um mercado de serviços de limpeza e que fechou as portas como resultado de ações movidas por trabalhadores que alegavam ter sido incorretamente classificados como autônomos. Isso também poderia ter sido evitado com investimentos em ESG, pois a retenção de trabalhadores e a sua situação legal são ambas variáveis presentes em qualquer filtro de ESG.

Uma matriz de ESG leva em consideração os perfis dos fundadores. Por exemplo, os fundos de capital de risco com frequência analisam determinação, flexibilidade, perfil de risco e histórico – tudo isso é essencial. Mas e o perfil ético? Lembram da Pay By Touch, a start-up que permitia aos usuários pagar por compras com as suas impressões digitais e sensores biométricos? A empresa foi forçada a fechar quando o CEO John P. Rogers foi acusado de abuso doméstico, porte de drogas e utilização de dinheiro da empresa para fins pessoais. Uma diligência de ESG teria emitido um alerta mais cedo do que tarde.

Também vemos start-ups regularmente envolvidas em escândalos relacionados a assédio sexual e discriminação de gênero e de raça, resultando em perda de valor. Outra lição aprendida foi com a Volkswagen e as violações flagrantes de normas ambientais, que apagaram 20% do valor da empresa e devem servir como uma advertência para que as start-ups se conscientizem da sua pegada ambiental. Tais erros podem ser sentenças de morte.

Para que não haja dúvidas, a aplicação de um filtro de responsabilidade social a start-ups pode significar três coisas: triagem negativa, triagem positiva ou investimento de impacto. A primeira refere-se simplesmente à exclusão de start-ups que atuam em certas áreas, como jogos de azar, tabaco ou indústria bélica/defesa.

A triagem positiva requer uma análise abrangente de um conjunto mais amplo de métricas ambientais, sociais e de governança e, em seguida, a seleção proativa das start-ups com os melhores históricos. O objetivo desse tipo de triagem, que pode se aplicar a todos os setores, é reduzir os riscos de investimento e aumentar os retornos.

Finalmente, o investimento de impacto significa identificar setores e selecionar empresas cujos serviços e produtos intencionalmente produzam efeitos sociais ou ambientais específicos e benéficos com métricas concretas. A primeira já está sendo praticada intuitivamente pela maioria dos fundos de capital de risco, e a última provavelmente ficará restrita a um nicho pequeno (embora importante), mas o maior potencial está na triagem positiva.

Para ser socialmente responsáveis, as start-ups não precisam acrescentar custos aos seus balanços patrimoniais. Também não precisam sair contratando novos consultores especializados em responsabilidade social e ambiental. Não precisam envolver mais advogados para examinar as questões de compliance. Não é um peso adicional nem outro fardo para os fundadores carregarem. Na realidade, é uma dimensão que terá de ser integrada logo de início, nas primeiras apresentações PowerPoint e discussões de ideias.

Ou seja, a responsabilidade empresarial tem de ser embutida desde o início, não acrescentada como uma reflexão posterior ou retroativamente para resolver um problema. Se um CEO não tiver consciência social, e não estiver disposto a estruturar a sua empresa com isso em mente, não será um líder promissor.